quarta-feira, 16 de abril de 2014

Embolio-me. Embrulho-me. Enleio-me....

Vontade de escrever. A escrita é a mediação entre o que esquecemos e recordamos. Um compromisso instável entre o real e nós. Não sei se estou vazio ou entupido, mas queria dizer de alguma forma que estive aqui e li...

quinta-feira, 21 de março de 2013

No Serro do Montado



 (Fonte foto: um bis-branco)

No serro do montado
Balança o corpo do enforcado
Corpo triste, abandonado
No chão o chapéu breve, amarrotado

Lado a lado as mãos solitárias

Sem afago leves e soltas

já não desejam ser outras

Agora inúteis e ignaras



Morte que dás o sentido

Vivemos na tua sombra e olvido

se um dia o nosso mortal passo,

demasiado se adianta

Vens como a primeira das mães,

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O ANTÓNIO MARIA

O António Maria

Autores; Pinheiro, Rafael Bordalo

Lisboa Typografia A Editora 1879-1898

Descrição Física: 32 cm

Periodicidade: Semanal

Cota Biblioteca Nacional: 070.487 (05)
       741.5 (05)



                      
A primeira página do número de 12 de Junho de 1876, é realçada por uma exuberante capa. Uma jovem burguesa lê o periódico de onde brotam personagens de Bordalo, também aqui representado, como o Fagundes; o Psit e o Arola. Estes resultam da estada do artista no Brasil e da sua observação da vida carioca. Fagundes é uma barriga metamorfoseada de deputado e aventureiro político. Arola e Psit. são uma dupla, reflexo de Sancho e do seu fidalgo D. Quixote. Da presença no referido pais, ficam as revistas Psit!!! (1877) e O Besouro (1878-79).  Por último o Zé Povinho dispensa apresentações. Figura iconográfica do mostruário bordaliano, representa o povo português e o seu sentido crítico e irónico perante as injustiças sociais

No editorial de abertura o António Maria pretende ser a syntese do bom senso nacional tocado por um raio alegre d’esse bom sol peninsular

Esta frase resume bem a alegria e a fantasia da escrita que o caracteriza, apresentando um quotidiano diferente da objectividade noticiosa, marcado pela sátira, boa disposição, mestria técnica das sinuosidades do texto e do lápis. Será assim na sua ambição e sinceridade, oposição do governo e oposição das oposições, num vasto arco de sensibilidade humorística. Apela assim a diversidade das contribuições a todos abertas, não esquecendo a necessária cortesia e amabilidade, principalmente entre senhoras, sendo tutelados pelas figuras de António o Justo e Maria mãe de Cristo, quanto à graça que se pede e deseja, de modo a reproduzir a silhueta da sociedade portuguesa no último quartel do século XIX. Tal afirmação demonstra à saciedade a consciência do exercício humorístico, enquanto força explicativa e desencadeadora dos fenómenos sociológicos. Utilizando jogos de palavras constantes a propósito do nome do periódico diga-se que este se inspira em António Maria Fontes Pereira de Melo (1819-1887), chefe do partido regenerador, presidente do Conselho de Ministros, e detentor de várias pastas ministeriais. Destacou-se pela sua acção de melhoramento das vias de comunicação viárias e rodoviárias, Criou o ensino industrial e organizou o agrícola.

Em resultado do clima de agressão à liberdade de imprensa por parte do governo e legislação, o periódico vai suspender a sua publicação de Jan. 1885 a Mar. 1891. Os tempos são conturbados com a alternância tão criticada entre o Partido Regenerador e o Partido Progressista, sufocando os emergentes como o Partido Republicano Português e o Partido Socialista Português. Já se avizinha a República no horizonte….

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

BALAS DE PAPEL


Balas.. de papel/Gualdino Gomes e Carlos Sertório

Numeração: N. 1 (30 Nov. 1891)-n. 4 (31 Jan. 1892)

Publicação: Lisboa : Imprensa de Lucas Evangelista Torres, 1891-1892

Descrição Física: 21 cm

Periodicidade: Bimensal

Cota Biblioteca Nacional: L. 3427//3 A.



Gualdino Gomes (Lisboa 1857 – 1948) Diplomado no Curso Superior de Letras, viveu algum tempo no Brasil, sendo admitido como bibliotecário na Biblioteca Nacional de Lisboa em 1891. Autor da revista A Tourada, em conjunto com Marcelino Mesquita, que subiu à cena em 1894. Em 1921 adere ao Grupo da Biblioteca, liderado por Raul Proença. Foi director interino da Biblioteca Nacional. Foi também poeta, ainda que tenha apresentado uma produção escassa e Carlos Sertório, são os autores desta publicação.

Esta revista ostenta na capa uma citação de Camilo Castelo Branco, … palavras contra a péssima ordem das coisas sublunares.  Segue-se uma homenagem a Fialho de Almeida, ou José Valentim Fialho de Almeida (Vila de Frades, 7 de Maio de 1857 — Cuba, 4 de Março de 1911), jornalista e escritor pós-romântico português, que na sua obra Os Gatos, composta por crónicas entre 1889 e 1894, apresenta um retrato satírico da vida nacional. A Balas...., assume-se como revista satírica, ao não pretender levantar o mundo como Arquimedes, mas sim… endireitá-lo.

Qual o legado passados mais de 100 anos? Pensamos que o que ainda resulta neste texto é o carácter pugilista do seu humor, breve e contundente, assim como a atenção do detalhe da vida quotidiana, a saber a voz do que se diria nos cafés e nas ruas. Tal sensibilidade será porventura a que nos é mais distante pois aquilo que é óbvio para uma determinada cultura, num determinado espaço temporal, raramente se preocupa em conferir chaves interpretativas para o provir. São reconhecidas as personagens colectivas dos políticos, artistas e notáveis, cuja vaidade e misérias são sovadas, sem qualquer pretensão aos jogos de linguagem e sofisticação humorística; mas já nos escapam os nomes e os pormenores. E este o seu derradeiro mérito se acreditarmos que mutatis mutandis não muda a natureza humana, nem a singular honestidade do ridículo posto a nu., também pelo relato dos costumes, modos de ser e de estar; de um tempo e lugar, que não estão assim tão distantes de nós. Vox Populi, a cuja visão periférica nada escapa.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

ANNAES ADMINISTRATIVOS E ECONÒMICOS

Annaes administrativos e economicos

Lisboa, Typografia do Jornal de Commercio, 1855.

Descrição física; 26 cm.

Cota Biblioteca Nacional: P.P. 22564/1 V. 


Apenas dois números publicados. Editado pela Câmara Municipal de Lisboa. Segundo o paradigma liberal, preocupa-se em divulgar perante os cidadãos, a actividade da Administração. Esta ganha relevo desde a Revolução Francesa e revoluções liberais, no âmbito da separação de poderes. Em Portugal este princípio concretiza-se no decreto nº 23, da autoria de Mouzinho da Silveira, que consagra a centralização da autoridade do Estado, de 16 de Maio de 1832. Tal diploma divide o Reino em províncias, comarcas e concelhos, cuja direcção é atribuída a administradores: Prefeitos, Sub-Prefeitos e Provedores, nomeados pelo Rei, sendo assistidos por Juntas electivas. Note-se que a divisão mínima do território, a paróquia, nem sequer é mencionada. Esta atitude do legislador é explicada a partir da herança de uma diversidade feudal, e de uma dispersão legislativa; no contexto de uma guerra civil, o Estado procura assim definir as suas funções com exactidão perante os cidadãos, segundo a racionalidade e organização. A Administração é o cimento que integra então todas as partes de um corpo social, segundo o bem comum, enfatizando-se a autoridade do Estado como princípio unificador.

Sendo editada pela C.M.L. o alcance da publicação transcende o interesse local, ao projectar-se no domínio nacional. Destaca-se ainda a visibilidade pública, na medida em que os Annaes, no seu programa defendem princípios de transparência e consulta pública, dos actos administrativos que seriam atempadamente publicados. A linguagem administrativa deve ser própria, os poderes da governação correctamente definidos nas suas fronteiras, reconhecendo-se que muitos cidadãos ignoram ainda esta temática e a sua importância cívica, independentemente de serem os sustentáculos do poder do Estado. São aliás estes os princípios da Constituição de 1822, e mesmo da Carta Constitucional de 1826, ainda que esta divida a soberania entre o Rei e a nação. Importa no entanto o cuidado de não fazer uma leitura precipitadamente moderna destes assuntos, pois ambos os textos colocam limitações ao direito de eleger e de constituir-se como representante. A própria produção legislativa encontrava-se à data dispersa pelas Ordenações Afonsinas (1446/1454); Ordenações Manuelinas (1512-1520), modificadas em 1526, 1533 e 1580 e Ordenações Filipinas (1603). Tal só vai cessar com a entrada em vigor do Código Civil de 1867. Quanto a códigos administrativos temos o primeiro em 1836 por Passos Manuel.  
Tentando concluir, esta publicação corresponde à consolidação de realidades modernas no domínio do Estado e da sua relação com os cidadãos, perante a desintegração das sociedades de Antigo Regime. Ainda assim a publicação conheceu uma existência efémera, cujo epitáfio aparecerá em 1856 nos Annaes do Município de Lisboa, atribuindo a sua extinção à falta de interesse público. Fica aqui a pequena homenagem pelo esforço eventualmente prematuro de transparência, diálogo e pedagogia cívica, que continua naturalmente tão actual, como na segunda metade do século XIX.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

A ARTE PORTUGUEZA

A arte portugueza : revista mensal de bellas-artes / Centro Artistico Portuense

Numeração: n. 1 (Jan. 1882)/ n. 12 (Mar. 1884)

Porto : C.A.P., 1882-1884

Periodicidade: Mensal



O Centro Artístico Portuense, foi fundado em 1879, com os estatutos a serem aprovados em 1880. Tinha como objectivo promover o desenvolvimento intelectual e artístico, e a educação do gosto tanto das artes plásticas como das industriais (relativas a objectos artísticos em madeira e metal, tanto fabricados à mão como à máquina). Era esta a sua revista, que tinha o seu conselho de redacção composto por:

Parte artística:

Thomaz Augusto Soller , (1848 - 1883), arquitecto nascido no Porto, estudou Pintura e Escultura, assim como Arquitectura Civil. Dedicou-se ao ensino, desenho e à arquitectura. Projectou uma cúpula para a igreja da Trindade (Porto); António Soares dos Reis, escultor (Vila Nova de Gaia 1847 - 1889), artista conceituado, entre as suas obras mais conhecidas contam-se: O Bêbado, Flor Agreste, uma estátua de Avelar Brotero, (1887) e finalmente os pintores João Marques da Silva Oliveira (Porto 1853 – 1927), pintor naturalista e professor. O naturalismo enquanto escola filosófica opõe-se ao subjectivismo e idealização romântica, na pintura escolhe representar objectos realistas, numa cena natural; António José da Costa (Porto 1840 – 1829) dedicou a sua carreira ao retrato e à paisagem, sendo o seu reconhecimento obtido a partir da pintura de flores.

Parte Literária:

Manoel Maria Rodrigues (Porto 1847 – 1899) Jornalista do Comércio do Porto. Escreveu A Rosa do Adro, publicada em 1870. Também escreveu vários libretos para operetas incluindo Na Lua. Foi arqueólogo amador e crítico literário; Joaquim António da Fonseca Vasconcelos (Porto 1849 – 1936), historiador e crítico de arte, contribuiu para o entendimento da História da Arte em Portugal, enquanto ciência com objecto e método próprios.

Neste primeiro número podemos ver um plano didáctico, para um curso de Desenho Graduado e Modelação, que rejeita o postulado dos processos mecânicos auxiliares do desenho, defendendo o uso da mão e vista, convenientemente educados. O objectivo não seria o de uma reprodução servil, mas sim de uma imagem. Caminha-se assim na direcção da modernidade artística ao valorizar-se a subjectividade artística. Note-se que à data da publicação deste número, a fotografia já era usada regularmente em Portugal destacando-se os trabalhos de Carlos Relvas, que na sua extensa galeria fotografa mendigos, pescadores, e figuras notáveis. Fotografou também o Tejo e o nu feminino.

Finalmente, temos a polémica sobre a existência de uma arte portuguesa anterior à romanização na Citânia de Briteiros, à qual responde Francisco Martins de Gouveia Morais  Sarmento (Guimarães 1833 – 1899) arqueólogo e escritor, problematizando as suas origens.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A IMPRENSA PORTUGUESA NO SÉCULO XIX


Escolhemos o século XIX para o tema desta obra pelo seu carácter extremamente prolífico em termos de edição jornalística. Nestes 53 títulos recenseados podemos encontrar um friso palpitante da sociedade portuguesa à época, que no ritmo do dia a dia manifesta os seus desejos, inquietações, interesses, problemas e polémicas.  Ontem como hoje a existência de uma imprensa e vector fundador de uma sociedade que se interroga sobre o seu papel e destino colectivo, não será assim surpreendente que possam encontrar-se nítidos paralelos com os dias de hoje.
Não é assim em vão que questões como a liberdade de imprensa sejam já abordadas na primeira metade do século XIX, aguardando-se pela revolução 1820 (Decreto de 31 de Março de 1821) para cair a censura civil (imposta por decreto de Pina Manique em 1803) e a religiosa praticada pela Inquisição, regressando a censura prévia em 1823, sendo novamente abolida em 1826. Regressa em 1833 por Decreto-Lei de Joaquim António de Aguiar; em 1834 é novamente suprimida, reposta em 1840, sendo formalmente restabelecida a liberdade de imprensa em 1850., voltando a censura em 1890 e 1896, conhecendo-se algum alívio em 1898.A partir de 1851, surge de forma decisiva uma imprensa científica, herdeira do pensamento iluminista, acompanhando a Regeneração. Começa também a clarificar-se o papel e responsabilidade social da figura do jornalista, concomitantemente ao aparecimento de uma opinião pública. Para tudo isto contribui o movimento liberal, defensor da igualdade cívica e da existência de um regime político representativo. Com as sucessivas Constituições, respectivamente de 1822, 1826 e 1838 é também o Estado que se repensa tendencialmente segundo o modelo romântico ou seja a visão burguesa do mundo, e as suas aspirações no que diz a liberdade e a direitos, surgindo um novo actor social e leitor, ou seja o povo na sequência do alargamento dos primeiros. Jornalismo informativo, jornalismo político, onde se debatem as ideias para a nação e com a nação, jornalismo de massas também que chama a si, uma diversidade de anúncios publicitários, que ostentam as últimas novidades estrangeiras e nacionais.

As invasões napoleónicas de 1807, 1809 e 1810, trouxeram consigo o ideário iluminista, que vai conhecer um amplo debate em Portugal, opondo-se ao trono e altar, defendidos pelo absolutismo, confunde-se assim o carácter noticioso com o cariz político. Em 1807, a fuga da família real para o Brasil, vai fomentar o aparecimento da Gazeta do Rio de Janeiro (1808-1822). A conjuntura das guerras napoleónicas vai aumentar decisivamente o interesse pelo que se passa na Europa. No contexto das lutas liberais, existem jornais para ambos os partidos. Do lado absoluto temos títulos curiosos como A Besta Esfolada, O Cacete, A Defesa de Portugal, A Contra Mina e o Mastigoforo. A imprensa liberal exilada replica com títulos como: O Correio Interceptado (1825-1826), O Cruzeiro ou Estrela Constitucional dos Portugueses 1826-1827) e O Português Emigrado (1828-1829). Com o triunfo da causa liberal em 1834, pululam periódicos populares como o Periódico dos Pobres o Periódico dos Pobres no Porto (Porto, 1834), o Periódico do Pobre (Lisboa, 1837), o Dez Réis – Jornal de Utilidade (1841), o Jornal de Utilidade Pública (1841) e ainda O Cinco Réis. Em 1837 são criadas novas restrições ao exercício da liberdade de imprensa, tendo os editores de jornais preencher condições de idoneidade, e um valor mínimo para os seus bens para suportar multas judiciais e indemnizações. Em 1842 sob o governo de Costa Cabral acontecem julgamentos sumários por abuso de liberdade de imprensa, impedimento da circulação de periódicos por correio, e destruição de topografias.
A revolta popular da Maria da Fonte, em 1846, e a guerra civil da Patuleia, entre 1846 e 1847, levaram à interdição dos jornais de combate.
Em 1850, nasce a famosa Lei das Rolhas que limita a liberdade de imprensa, tal origina inúmeros protestos, sendo revogada em 1850. Com a Regeneração, depois do golpe militar do Marechal Saldanha, cai o governo ditatorial de Costa Cabral, e entre 1851 e 1866 regressa progressivamente a liberdade de imprensa. Sustentados pela iniciativa privada, surgem jornais de massas, com tiragens substanciais, preços baixos sustentados pela publicidade, seguindo-se uma linha de objectividade, da qual o Diário de Notícias é um exemplo. A imprensa é encarada como um negócio, seguindo uma filosofia industrial. As pequenas redacções animadas por propósitos políticos, dão lugar a vários profissionais, profissionalizando-se a função do repórter, em detrimento do polemista. Novidades como o telégrafo e o comboio, concorrem para a divulgação rápida da notícia e dinamização dos periódicos. Surgem as primeiras agências noticiosas. Dentro da linha referida surgem título como O Diário Popular e o Jornal de Notícias ambos em 1866, atentos à realidade local nacional e internacional